quinta-feira, 18 de abril de 2013

Morte ao entardecer


Encontro com ela.
Num último instante.
Faltando suspiros, batidas marcantes
Ouve-se o mar nas pedras distantes
Para todos os efeitos, aguardo.

Ela chega no alto da torre
Onde minha alcova me espera
Onde preparo o adeus
Com  olhos cobertos
As mãos me protegem de vê-la.

Ao pôr-do-sol, à espreita
Ela controla meu ser
Leva-me embora
Janela a fora
Voamos juntos num delírio,
num sonho, num desespero,
num prazer.

É o destino, é a morte
São irmãos de nascer
De morrer são cúmplices
Agora esvazia
O último gole, último vislumbre de vida
Sob as janelas dos olhos a luz se apaga
A alma congela
A vida se esvai.
E agora?
Paralela em outro mundo.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Na sala de espera

Três pessoas.
A primeira é mulher.
A segunda é homem.
A terceira é homem.
A primeira está sentada no lado oposto da sala.
O primeiro homem está sentado ao lado do segundo homem.
O segundo homem e a mulher se entreolham em pequenos intervalos.
O primeiro homem lê o jornal.
A mulher cruza e descruza as pernas.
O segundo homem afrouxa a gravata em seu pescoço.
O primeiro homem abaixa o jornal, endireita o óculos.

Sucessão de fatos.

O primeiro homem olha para o segundo homem ao seu lado, em seguida olha para a mulher. Olha boquiaberto para o segundo homem. Se levanta. Quando a recepcionista o chama. Osvaldo Siqueira. O primeiro homem segue em direção à sala. O segundo homem se levanta, segurando o braço do primeiro homem (Osvaldo Siqueira) e diz: Vou entrar com você, tá?






terça-feira, 12 de março de 2013


Contos de Pecadinhos - Pela vida, pelos três

Eram dois, depois se tornaram três. Já havia mais de 6 meses que mal se olhavam nos olhos, para não dizer 6 meses sem um toque, sem um beijo, sem palavras inteiras. O bebê era uma mistura dos dois, os olhos dela e as expressões faciais dele. O amor que já não existia era um integrante da família e era quem tomava conta do primeiro filho. Ela cumpria suas funções de mãe, pela obrigação e pelo amor que tinha pelo seu fruto, mas já não fazia questão da presença daquele ser, que outrora fora sua metade e hoje se parecia mais com um estranho invasor do seu mundo de mãe e filho. 
Ele sentia-se só, não se aproximava mais dela porque desde que dera a luz parecia um tanto arredia e inconstante. Não dormiam mais no mesmo quarto, ela não lhe desejava se quer boa noite, com muita sorte pedia para ele desligar as luzes quando fosse dormir. Ele passou a chegar tarde do trabalho, para não ter que sentir-se um intruso em sua própria casa - que já não era um lar. 
Ela tinha medo de perdê-lo, mas não sabia o porquê. Não o amava mais, certo? Ela não sabia. Esperava que aspereza dos seus atos chamasse a atenção dele, que ele tentasse reconquistá-la de alguma forma, que pedisse desculpas pelo tempo que ele passava ausente, que fosse romântico e dissesse que a amava. Mas ele não o fez. 
Ele, por sua vez, sentia mais medo ainda, achava que ela não o amava mais por ele não ser bonito, não ter todo o dinheiro do mundo e por ter dado possivelmente a coisa que ela mais queria no mundo: um filho, Ensaiou diversas vezes um discurso para dizer que a amava e que se ela não o correspondia mais que o deixasse e pedisse para ele ir embora. Mas a coragem nunca o deixou tomar atitudes.
Ela espera que ele se aproxime para vê-la de perto. Ele espera que ela o queira por amor, por ele amá-la também.
No fundo os dois ainda se amam.


segunda-feira, 11 de março de 2013

O ressurgir das Secretas

Não é que de repente eu saiba o que estou fazendo.
Mas quando me ponho a pensar, me pego vendo.
Elas voam de encontro a mim, as aspas, os fins.
As palavras mortas, já enterradas no meu eu, em mim.
Matutas, astutas, molecas, de merda e afins.
Poucas se mostram inteiras, outras à beira.
Ostentam o brilho do ouro e eu só lhes dou da cera.
De luz fraca e suspiros espaçados, me volto ao meu interior inexplicável e indiscutível.
O irremediável prazer de verborragizar.

Poesia não leva ninguém a lugar nenhum, mas nos leva a lugares onde pessoas jamais vão.

domingo, 14 de outubro de 2012

Contos de Pecadinhos - A separação


     


Os dois se distanciaram com o tempo e passaram a não lembrar de tentar esquecer um ao outro. Esqueceram-se mesmo. Ligados a outros compromissos, conhecendo novas pessoas, enfrentando a cada dia novos desafios, deixaram de pensar em tudo o que (não) aconteceu. Já faziam dois meses e ele já estava saindo com novos amigos e conhecendo lugares que nunca tinha ido. Ela já tinha emagrecido quase dois quilos e meio e tinha feito um corte moderno no cabelo; comprou uma moto e decidiu que pegaria a estrada nas próximas férias - logo ela que tinha medo de estrada e não se imaginava um dia sem lavar o cabelo duas vezes. Evitavam ir aos lugares que os dois costumavam ir juntos, evitavam até mesmo a vizinhança do apê que moraram durante 7 anos e que ela continuava vivendo, mas já não frequentava o mercadinho do Seu Horácio - era óbvio demais. Ele agora morava num apê muito menor, com móveis mais modernos - nada rústico que soasse hippie, o faria lembrar dela. Ela passou a não olhar mais pro parque das redondezas nem mesmo se tivesse movimentação, manifesto, performance ou outra atividade qualquer - eles passeavam todos os domingos com o Nestor Aristides - um bulldog de 4 anos, filho do casal. Nenê, apelido carinhoso de Nestor, ficou com o pai e deveria ter direito de ver a mãe que fosse uma vez ao ano, mas eles já não sabiam se essa regra vigoraria. Os dois estavam mesmo muito magoados e de tanto tentar esquecer que se amavam, mesmo estando juntos, deixaram de se amar e seguiram suas vidas. Ela tentava ignorar as besteiras que ele fazia e ele fazia o possível para parecer feliz num casamento que já não existia. Esqueceram-se que amor não é ardente todo dia, que o espaço em um casamento deve ser arejado e seco, para conservar bem e não azedar. Os dois se sufocavam pela falta de afeto, não era liberdade, era descaso. O que eles vivam era pra ser um córrego, com fluidez na corrida da água, mas se tornou enchente e todo o trabalho de manter as coisas em um caminho livre, transbordou. Eles ainda pretendem se encontrar um dia, no subconsciente, quem sabe pra um happy hour e depois sexo tórrido. Ou talvez praquele tradicional passeio no parque com Nenê e depois bodas de ouro.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Verdades  Confabulosas

Não atribuo culpas
Não enxergo as falhas tuas
Mas me machuco todos os dias
Durante as minhas lutas
Por dias verdadeiros
Por mentiras esquecidas
Por dores menos minhas

Viro meu corpo no espelho
Não enxergo medos
Tampouco ultrapasso desejos
Vontades que se escondem nos meus cabelos
Que verão a luz do dia em meus sonhos mais fantasiosos.

Deixo de falar, não é por falha
Não deixo de amar por ser quem sou
Só eu posso amar por mim
Meus sentidos, sou eu quem sinto
Meus olhos enxergam quase tudo
Minha verdade de ser é nua, não minto
Na minha alma verde sou crua
Mas nas minhas bagagens só posso ser contemporânea de mim mesma, o que é mais difícil.
Contos de Pecadinhos - Dois dias 
Hoje completam dois dias que ela descobriu. As lágrimas ainda saltam quando a lembrança passa em seus olhos em milásimos de segundos. Ela tem se controlado muito bem, mas quando põe os olhos e qualquer coisa que a lembre dos anos que passaram juntos, o mundo desaba.
Seus olhos saem de foco, nem e-mail, nem revista, nem comentário de foto. Nada prende sua atenção na frente do computador. 
Ela decide ouvir música. Alguma coisa animada, nova, uma banda que ela nunca ouviu antes. Acha uma merda. Moderno demais.
Os ponteiros do relógio não podem estar em seu estado normal, definitivamente estão letárgicos hoje.
Já é quase a hora do almoço, no entanto a espera parece quase como se 100 anos ainda não tivessem passado para que os ponteiros possam se encontrar no século que vem.
Vários dos seus colegas de trabalho lhe perguntaram sobre memorandos, reuniões, atas, listas de coisas que ela não faz a menor idéia de onde, por que, quando e se existem.
A sensação de incredulidade, abandono e engano estão onipresentes em cada respiração, em cada batida do coração para bombear o sangue para todas as partes do corpo que também doem.
A garganta já não sabe o que é relaxar, está tensa e seca, como se algo continuasse preso e se recusasse a descer goela abaixo.
Todos os anos cismam em perspassar pelos olhos, mesmo usando todo o poder de concentração para responder um simples e-mail, os aniversários de casamento insistem em se exibir como atrações de circo.
A vontade de desaparecer sem deixar rastros toma conta do corpo, da alma, do espírito. Pra onde? 
A dúvida se o seu desaparecimento fará alguma diferença na vida de quem quer que seja.
O pensamento voa para a família. Os amigos? Muito ocupados. É isso. Descobre que seus pais não a abandonariam. Jamais.
Hora do almoço. Ela não tem mais fome, claro. Mas vai se empanturrar do quer que seja, só por distração.
Bobagem que coração partido emagrece, só em novela.
Na vida real você vira uma jamanta, deprimida, cheia de rugas e sem perspectiva de melhora.
Dois dias apenas.
Em uma semana ela se sentirá melhor, isto é, se não se matar antes, é o que todos dizem. Mas ninguém disse a ela, ninguém sabe ainda.
Só fazem dois dias.
E ela entrará em colapso nervoso dentro de poucas horas.