quarta-feira, 24 de abril de 2013

Série Poemas Imaginados e Combinados

Imaginário saboroso
Quem te diz inexistente
Não sabe o gosto quente
Do meu beijo na tua pele
Na pele que não se toca
Sem a menor suspeita
Todos riem do meu amor
Porque sou só ou por ser carente
Beijo um senhor bem apessoado
Só que imaginariamente.




Kissing Magritte - Joe Webb




Série Diálogos Pelo Caminho

Diálogos no amor.

- Você não serve mais. É como um vestido que eu gostasse muito, mas que não me servisse mais.
- Então eu sou um vestido que não te serve mais?
- Basicamente.
- Você sempre diz algum absurdo. Eu até que gosto.
- Eu não sei do que você está falando. Não disse absurdo nenhum. É que a gente não tá mais se encaixando mesmo.
- Você acha? Será porque eu to trepando com a secretária do Rodrigo? Ouvi dizer que quando o cara tem uma amante a relação muda mesmo.
- Até parece. Uma gostosona daquelas dando pra você?
- É. Ué.
- Acho que você é esquizofrênico.

Diálogos de flerte.

- Então você tem negócio próprio...?
- Tenho.
- Qual o lucro mensal? Ah, desculpa a indiscrição.
- Hum, eu não sei direito. Minha irmã que cuida disso.
- Filhos?
- 2.
- Namorado?
- Haha, você é da polícia é?
- Na verdade sou, mas não tem na a ver com isso... cê é linda sabia?
- Obrigada. Você é charmoso. Quer tomar um chopp?
- Vamos.
- Aí você me protege do perigo. Haha.

Diálogos pela salvação

- Você ainda gosta dele?
- Não. Já te disse que não. Aquilo passou.
- Mas e se você ainda gostasse dele?
- Aí eu não estaria mais contigo.
- Você me ama?
- Amo. Amo muito.
- Que bom. Assim você pode sofrer como eu sofri, quando descobri que você estava me traindo. Tô gostando de outra pessoa.
- O quê?
- Tá doendo? Diz que tá. Por favor.

Diálogos da paixão

- Te dou dois desejos.
- Dois? Quero mil.
- Te dou só dois (beija)
- (beijando) Você é demais. Quero ficar contigo até ficar velho.
- Haha, quando você estiver velho eu já vou ter morrido a muito tempo, baby.
- Nada disso, você vai ser uma velhinha mucho loca.
- Não vai dar tempo. A gente não vai ter filhos.
- A gente adota um curuminzinho. E fica tudo bem.
- Pedro, só tenho mais um ano no máximo. Vou sentir tua falta.
- E eu a tua, cunhantã.

Diálogos de fim

-Oi, tudo bom?
- Opa, como é que vai?
-Tudo ótimo.
- Tranquilo.
...
(silêncio constrangedor)
- É isso então.
- É.
- Bacana te ver. Vamo marcar qualquer coisa. Eu te ligo.
- Tá bom liga mesmo.
- Ligo. Tu ainda tá com o Tim?
- Nunca tive Tim.
- Ah.
- Beleza então. Tchau, tchau.
- Falou. Beijão, querida.
...
-(ele à parte) puts, como era o nome dela?
-(ela à parte) ele esqueceu meu nome, eu esqueci da onde eu conheço ele.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Morte ao entardecer


Encontro com ela.
Num último instante.
Faltando suspiros, batidas marcantes
Ouve-se o mar nas pedras distantes
Para todos os efeitos, aguardo.

Ela chega no alto da torre
Onde minha alcova me espera
Onde preparo o adeus
Com  olhos cobertos
As mãos me protegem de vê-la.

Ao pôr-do-sol, à espreita
Ela controla meu ser
Leva-me embora
Janela a fora
Voamos juntos num delírio,
num sonho, num desespero,
num prazer.

É o destino, é a morte
São irmãos de nascer
De morrer são cúmplices
Agora esvazia
O último gole, último vislumbre de vida
Sob as janelas dos olhos a luz se apaga
A alma congela
A vida se esvai.
E agora?
Paralela em outro mundo.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Na sala de espera

Três pessoas.
A primeira é mulher.
A segunda é homem.
A terceira é homem.
A primeira está sentada no lado oposto da sala.
O primeiro homem está sentado ao lado do segundo homem.
O segundo homem e a mulher se entreolham em pequenos intervalos.
O primeiro homem lê o jornal.
A mulher cruza e descruza as pernas.
O segundo homem afrouxa a gravata em seu pescoço.
O primeiro homem abaixa o jornal, endireita o óculos.

Sucessão de fatos.

O primeiro homem olha para o segundo homem ao seu lado, em seguida olha para a mulher. Olha boquiaberto para o segundo homem. Se levanta. Quando a recepcionista o chama. Osvaldo Siqueira. O primeiro homem segue em direção à sala. O segundo homem se levanta, segurando o braço do primeiro homem (Osvaldo Siqueira) e diz: Vou entrar com você, tá?






terça-feira, 12 de março de 2013


Contos de Pecadinhos - Pela vida, pelos três

Eram dois, depois se tornaram três. Já havia mais de 6 meses que mal se olhavam nos olhos, para não dizer 6 meses sem um toque, sem um beijo, sem palavras inteiras. O bebê era uma mistura dos dois, os olhos dela e as expressões faciais dele. O amor que já não existia era um integrante da família e era quem tomava conta do primeiro filho. Ela cumpria suas funções de mãe, pela obrigação e pelo amor que tinha pelo seu fruto, mas já não fazia questão da presença daquele ser, que outrora fora sua metade e hoje se parecia mais com um estranho invasor do seu mundo de mãe e filho. 
Ele sentia-se só, não se aproximava mais dela porque desde que dera a luz parecia um tanto arredia e inconstante. Não dormiam mais no mesmo quarto, ela não lhe desejava se quer boa noite, com muita sorte pedia para ele desligar as luzes quando fosse dormir. Ele passou a chegar tarde do trabalho, para não ter que sentir-se um intruso em sua própria casa - que já não era um lar. 
Ela tinha medo de perdê-lo, mas não sabia o porquê. Não o amava mais, certo? Ela não sabia. Esperava que aspereza dos seus atos chamasse a atenção dele, que ele tentasse reconquistá-la de alguma forma, que pedisse desculpas pelo tempo que ele passava ausente, que fosse romântico e dissesse que a amava. Mas ele não o fez. 
Ele, por sua vez, sentia mais medo ainda, achava que ela não o amava mais por ele não ser bonito, não ter todo o dinheiro do mundo e por ter dado possivelmente a coisa que ela mais queria no mundo: um filho, Ensaiou diversas vezes um discurso para dizer que a amava e que se ela não o correspondia mais que o deixasse e pedisse para ele ir embora. Mas a coragem nunca o deixou tomar atitudes.
Ela espera que ele se aproxime para vê-la de perto. Ele espera que ela o queira por amor, por ele amá-la também.
No fundo os dois ainda se amam.


segunda-feira, 11 de março de 2013

O ressurgir das Secretas

Não é que de repente eu saiba o que estou fazendo.
Mas quando me ponho a pensar, me pego vendo.
Elas voam de encontro a mim, as aspas, os fins.
As palavras mortas, já enterradas no meu eu, em mim.
Matutas, astutas, molecas, de merda e afins.
Poucas se mostram inteiras, outras à beira.
Ostentam o brilho do ouro e eu só lhes dou da cera.
De luz fraca e suspiros espaçados, me volto ao meu interior inexplicável e indiscutível.
O irremediável prazer de verborragizar.

Poesia não leva ninguém a lugar nenhum, mas nos leva a lugares onde pessoas jamais vão.

domingo, 14 de outubro de 2012

Contos de Pecadinhos - A separação


     


Os dois se distanciaram com o tempo e passaram a não lembrar de tentar esquecer um ao outro. Esqueceram-se mesmo. Ligados a outros compromissos, conhecendo novas pessoas, enfrentando a cada dia novos desafios, deixaram de pensar em tudo o que (não) aconteceu. Já faziam dois meses e ele já estava saindo com novos amigos e conhecendo lugares que nunca tinha ido. Ela já tinha emagrecido quase dois quilos e meio e tinha feito um corte moderno no cabelo; comprou uma moto e decidiu que pegaria a estrada nas próximas férias - logo ela que tinha medo de estrada e não se imaginava um dia sem lavar o cabelo duas vezes. Evitavam ir aos lugares que os dois costumavam ir juntos, evitavam até mesmo a vizinhança do apê que moraram durante 7 anos e que ela continuava vivendo, mas já não frequentava o mercadinho do Seu Horácio - era óbvio demais. Ele agora morava num apê muito menor, com móveis mais modernos - nada rústico que soasse hippie, o faria lembrar dela. Ela passou a não olhar mais pro parque das redondezas nem mesmo se tivesse movimentação, manifesto, performance ou outra atividade qualquer - eles passeavam todos os domingos com o Nestor Aristides - um bulldog de 4 anos, filho do casal. Nenê, apelido carinhoso de Nestor, ficou com o pai e deveria ter direito de ver a mãe que fosse uma vez ao ano, mas eles já não sabiam se essa regra vigoraria. Os dois estavam mesmo muito magoados e de tanto tentar esquecer que se amavam, mesmo estando juntos, deixaram de se amar e seguiram suas vidas. Ela tentava ignorar as besteiras que ele fazia e ele fazia o possível para parecer feliz num casamento que já não existia. Esqueceram-se que amor não é ardente todo dia, que o espaço em um casamento deve ser arejado e seco, para conservar bem e não azedar. Os dois se sufocavam pela falta de afeto, não era liberdade, era descaso. O que eles vivam era pra ser um córrego, com fluidez na corrida da água, mas se tornou enchente e todo o trabalho de manter as coisas em um caminho livre, transbordou. Eles ainda pretendem se encontrar um dia, no subconsciente, quem sabe pra um happy hour e depois sexo tórrido. Ou talvez praquele tradicional passeio no parque com Nenê e depois bodas de ouro.